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Desembaraçando o esqueleto

A história da Mulher-esqueleto é uma dentre muitas histórias universais de"teste do pretendente". Numa história desse tipo, os amantes precisam provar sua boa intenção e seu poder, demonstrando geralmente que têm os cojones ou ovarios para encarar alguma força numinosa mais poderosa e assustadora... Embora aqui a estejamos chamando de natureza da vida-morte-vida, outros poderiam chamá-la de um aspecto do Self ou de espírito do amor, e ainda outros, de Deus, de Grada, um espírito de energia, ou de uma infinidade de nomes.
O pescador demonstra sua boa intenção, sua força e seu envolvimento crescente com a Mulher-esqueleto ao desemaranhá-la. Ele olha para ela toda dobrada para um lado e para o outro e vê nela um vislumbre de algo, ele nem sabe de quê. Ele havia fugido dela, ofegante e soluçante. Agora ele cogita tocar nela.

Comentários

  1. Só por existir, ela de algum modo está tocando o coração do pescador. Quando compreendermos a
    solidão da natureza da vida-morte-vida, que é constantemente rejeitada, embora não
    por culpa sua... então talvez possamos nos sentir tocados pelo seu sofrimento.
    Se for ao amor que estivermos nos dedicando, muito embora nos sintamos
    apreensivos ou assustados, estaremos dispostos a desembaraçar a linha dos ossos da
    natureza da morte. Estaremos dispostos a ver como tudo isso vai funcionar junto.
    Estaremos dispostos a tocar o não-belo no outro e em nós mesmos. Oculto nesse
    desafio está um teste inteligente do Self. Ele se encontra em termos mais claros nos
    contos em que o belo assume a aparência de feio com o objetivo de pôr à prova a
    personalidade de alguém.

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A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)