Pular para o conteúdo principal

Nessa história há duas transformações, a do caçador e a da Mulher-esqueleto.

Em termos modernos, a transformação do caçador seria mais ou menos como o que se segue. A princípio, ele é o caçador inconsciente. "Oi, sou só eu. Estou pescando e cuidando da minha vida." Depois, ele passa a ser o caçador assustado, em fuga. "O quê? Você me quer? Bem, acho que está na hora de eu ir andando." Mais tarde, ele reconsidera, começa a desenredar seus sentimentos e descobre um meio de se relacionar com ela. "Parece que a minha alma é atraída por você. Quem é você, no fundo? Qual é a sua estrutura?" Em seguida, ele adormece. "Vou confiar em você. Vou me permitir expor minha inocência." Com isso, sua lágrima de sentimento profundo é revelada e alimenta a Mulher-esqueleto. "Esperei muito tempo por você." Seu coração é emprestado para criá-la por inteiro. "Pronto, tome meu coração e conquiste a vida na minha vida." E assim o caçador-pescador é recompensado com o amor. Essa é a transformação típica de uma pessoa que aprende a amar.
As transformações da Mulher-esqueleto assumem uma trajetória ligeiramente diferente. Para começar, como natureza da vida-morte-vida, ela está acostumada a que seus relacionamentos com seres humanos terminem imediatamente depois de ela ser fisgada. Não é de surpreender que ela cubra com tantas bênçãos aqueles que se dispõem a correr na sua companhia, pois está habituada a ver os seres humanos cortar a linha do anzol e disparar para a terra. No início, ela foi rejeitada e vive no exílio. Depois, é por acaso fisgada por alguém que tem medo dela. Ela começa a voltar à vida a partir de um estado inerte. Ela come, bebe daquele que a resgatou, transforma-se com a força do coração do homem, com sua coragem de encará-la. Ela se transforma de esqueleto em ser vivo. É amada por ele, e ele, por ela. Ela o revitaliza como é revitalizada por ele. Ela, que é a grande roda da natureza, e ele, o ser humano, passam a conviver em harmonia.

Comentários

  1. Vemos na história que a força da Morte exige o amor. Ela exige a lágrima — o
    sentimento — e o coração. Ela precisa que façam amor com ela. A natureza da vidamorte-vida exige dos amantes que eles encarem de imediato esse aspecto, que eles
    não negaceiem nem desfaleçam para escapar dela, que sua dedicação mútua seja
    muito mais do que "estar juntos", que seu amor se baseie na união do conhecimento e
    da força para se deparar com essa natureza, para amar essa natureza e para juntos
    dançarem com ela.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)