Pular para o conteúdo principal

A primeira tarefa, a descoberta do tesouro, encontra-se em dezenas de lendas de todo o planeta que descrevem a captura de uma criatura do fundo do mar. Quando isso ocorre na narrativa, sabemos sempre que uma grande luta logo irá se realizar entre o que vive no mundo objetivo e o que vive ou o que foi, por meio de repressão, forçado a viver no mundo subterrâneo. Nesta história, o pescador pega mais do que ele jamais esperou. "Epa, esse é grande", pensa ele, quando se volta para recolher a rede.

Ele não se dá conta de estar trazendo à superfície a criatura mais apavorante que jamais conheceu, de estar trazendo mais do que ele tem condição de manejar. Ele não sabe que terá de se entender com a criatura, que está a ponto de ter todos os seus poderes testados. E o que é pior, ele não sabe que não sabe. É esse o estado de todos os apaixonados no início: são todos cegos como morcegos.
Os seres humanos imprudentes são propensos a se acercar do amor do mesmo jeito que o pescador da história encara o que apanhou: "Ah, espero apanhar um bem grande, um que me alimente por muito tempo, um que seja interessante, que facilite minha vida, do qual eu possa me gabar com todos os outros caçadores do meu lugar." É esse o movimento natural do caçador ingênuo ou esfaimado. Os muitos jovens, os não-iniciados, os famintos e os feridos têm valores que giram em torno da descoberta e conquista de troféus. Os muito jovens ainda não sabem exatamente o que estão procurando; os famintos buscam o sustento; e os feridos procuram a compensação por perdas anteriores. No entanto, todos querem que o tesouro "caia por acaso" dos céus.

Comentários

  1. Quando estamos na companhia das grandes forças da psique, nesse caso da
    mulher da vida-morte-vida, e se somos ingênuos, então, sem dúvida, vamos receber
    mais do que o que estávamos procurando. É muito freqüente que nos entreguemos à
    fantasia de que seremos alimentados a partir da natureza profunda, por meio de um
    caso de amor, um emprego ou de dinheiro, e esperamos que essas rações durem
    muito tempo. Preferíamos não ter de trabalhar mais. Na realidade, há ocasiões nas
    quais gostaríamos de receber alimento sem realizar muito. No fundo, sabemos que
    nada de valor jamais surge dessa maneira. Mas temos esse desejo assim mesmo.

    ResponderExcluir
  2. Ficar deitado inerte, apenas sonhando com um amor perfeito, é fácil. É uma
    espécie de anestesia da qual talvez não nos recuperemos nunca, a não ser para
    agarrar impiedosamente algo de valor, apesar de estar além da nossa percepção. Para
    os ingênuos e os feridos, o milagre dos caminhos da psique está em que, mesmo que
    você não se empenhe muito, que você seja irreverente, que não tenha essa intenção,
    que realmente nem esperasse por isso, que não queira, que não se sinta digno, que
    não se sinta pronto, você de qualquer jeito irá topar, por acaso, com o tesouro.
    Depois, cabe à sua alma a tarefa de não ignorar o que veio à tona, de reconhecer o
    tesouro pelo que ele for, não importando o quanto sua apresentação for inusitada, e
    de refletir com cuidado acerca do que fará em seguida.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A Mulher Esqueleto

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)

As vezes aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos.

Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços — todos no mesmo relacionamento. O processo se complica com o fato de que grande parte da nossa cultura excessivamente civilizada tem dificuldade para tolerar o que tiver natureza transformadora. Existem atitudes melhores para nosso envolvimento com a natureza da vida-morte-vida. Em todo o mundo, embora lhe atribuam nomes diferentes, muitos vêem essa natureza como un baile con La Muerte, uma dança com a morte: a Morte como um dos parceiros, a Vida como o outro.