A primeira tarefa, a descoberta do tesouro, encontra-se em dezenas de lendas de todo o planeta que descrevem a captura de uma criatura do fundo do mar. Quando isso ocorre na narrativa, sabemos sempre que uma grande luta logo irá se realizar entre o que vive no mundo objetivo e o que vive ou o que foi, por meio de repressão, forçado a viver no mundo subterrâneo. Nesta história, o pescador pega mais do que ele jamais esperou. "Epa, esse é grande", pensa ele, quando se volta para recolher a rede.
Ele não se dá conta de estar trazendo à superfície a criatura mais apavorante que jamais conheceu, de estar trazendo mais do que ele tem condição de manejar. Ele não sabe que terá de se entender com a criatura, que está a ponto de ter todos os seus poderes testados. E o que é pior, ele não sabe que não sabe. É esse o estado de todos
os apaixonados no início: são todos cegos como morcegos.
Os seres humanos imprudentes são propensos a se acercar do amor do mesmo jeito que o pescador da história encara o que apanhou: "Ah, espero apanhar um bem grande, um que me alimente por muito tempo, um que seja interessante, que facilite minha vida, do qual eu possa me gabar com todos os outros caçadores do meu lugar."
É esse o movimento natural do caçador ingênuo ou esfaimado. Os muitos jovens, os não-iniciados, os famintos e os feridos têm valores que giram em torno da descoberta e conquista de troféus. Os muito jovens ainda não sabem exatamente o que estão procurando; os famintos buscam o sustento; e os feridos procuram a compensação por perdas anteriores. No entanto, todos querem que o tesouro "caia por acaso" dos céus.


Quando estamos na companhia das grandes forças da psique, nesse caso da
ResponderExcluirmulher da vida-morte-vida, e se somos ingênuos, então, sem dúvida, vamos receber
mais do que o que estávamos procurando. É muito freqüente que nos entreguemos à
fantasia de que seremos alimentados a partir da natureza profunda, por meio de um
caso de amor, um emprego ou de dinheiro, e esperamos que essas rações durem
muito tempo. Preferíamos não ter de trabalhar mais. Na realidade, há ocasiões nas
quais gostaríamos de receber alimento sem realizar muito. No fundo, sabemos que
nada de valor jamais surge dessa maneira. Mas temos esse desejo assim mesmo.
Ficar deitado inerte, apenas sonhando com um amor perfeito, é fácil. É uma
ResponderExcluirespécie de anestesia da qual talvez não nos recuperemos nunca, a não ser para
agarrar impiedosamente algo de valor, apesar de estar além da nossa percepção. Para
os ingênuos e os feridos, o milagre dos caminhos da psique está em que, mesmo que
você não se empenhe muito, que você seja irreverente, que não tenha essa intenção,
que realmente nem esperasse por isso, que não queira, que não se sinta digno, que
não se sinta pronto, você de qualquer jeito irá topar, por acaso, com o tesouro.
Depois, cabe à sua alma a tarefa de não ignorar o que veio à tona, de reconhecer o
tesouro pelo que ele for, não importando o quanto sua apresentação for inusitada, e
de refletir com cuidado acerca do que fará em seguida.