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A imagem do pescador tem algum simbolismo arquetípico em comum com a do caçador; e as duas representam, entre muitas coisas, os elementos psicológicos dos seres humanos que procuram saber, que lutam para nutrir o self por meio da fusão com a natureza instintiva.

Nas histórias, assim como na vida, o caçador e o pescador começam sua saga com uma dentre três atitudes: a atitude de respeito sagrado, a de perversidade ou a desajeitada. Na história da Mulher-esqueleto, vemos que o pescador é um pouco desajeitado. Ele não é perverso, mas tampouco tem uma atitude ou intenção de respeito sacro.

Comentários

  1. Às vezes, os amantes começam do mesmo modo. No início do relacionamento,
    estão só à procura de um pouco de emoção, ou de uma dose antidepressiva de uma
    "companhia para me ajudar a passar a noite". Sem que percebam, eles
    desavisadamente penetram numa parte da sua própria psique e da psique do outro
    habitada pela Mulher-esqueleto. Embora seus egos possam estar à procura do prazer,
    esse espaço psíquico é terreno sagrado para a Mulher-esqueleto. Se sairmos a pescar
    nessas águas, podemos ter certeza de que a fisgaremos.
    O pescador considera que está apenas em busca de nutrição e de alimento,
    quando na realidade está trazendo das profundezas a natureza feminina dementai
    por inteiro, a esquecida natureza da vida-morte-vida. Ela não pode ser ignorada, pois
    onde quer que tenha início uma vida nova, a Rainha da Morte aparece. Quando isso
    ocorre, pelo menos naquele instante, as pessoas prestam uma atenção temerosa e
    enlevada.

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  2. Na temática, a Mulher-esqueleto é semelhante a Sedna, outra imagem da
    vida-morte-vida da mitologia do povo inuit. O pai de Sedna a jogou por sobre a borda
    do seu caiaque porque, ao contrário de outras irmãs obedientes da sua tribo, ela havia
    fugido com um homem-cão. Como o pai do conto de fadas "A donzela sem mãos", o
    pai de Sedna decepou-lhe as mãos. Seus dedos e braços caíram no fundo do mar,
    onde se transformaram em peixes, focas e outras formas de vida que deram o
    sustento ao povo inuit desde então.
    O que sobrou de Sedna também caiu no fundo do mar. Ali, ela se tornou só
    ossos e uma longa cabeleira. Nos rituais do povo inuit, os xamãs que vêm para a terra
    nadam até ela, trazendo alimentos de paz para aplacar seu guardião rosna-dor, o
    marido-cão. Os xamãs penteiam seus longos cabelos enquanto cantam para ela,
    implorando-lhe que cure a alma ou o corpo de uma pessoa lá em cima, pois ela é a
    grande angakok, mágica. Ela é o grande portão norte da Vida e da Morte.

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A Mulher Esqueleto

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)

As vezes aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos.

Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços — todos no mesmo relacionamento. O processo se complica com o fato de que grande parte da nossa cultura excessivamente civilizada tem dificuldade para tolerar o que tiver natureza transformadora. Existem atitudes melhores para nosso envolvimento com a natureza da vida-morte-vida. Em todo o mundo, embora lhe atribuam nomes diferentes, muitos vêem essa natureza como un baile con La Muerte, uma dança com a morte: a Morte como um dos parceiros, a Vida como o outro.