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Nos contos de fadas, as lágrimas transformam as pessoas, fazendo com que se lembrem do que é importante e salvando sua própria alma. Somente um coração empedernido refreia o choro e a união. Entre os sufis, existe um ditado, ou melhor, uma oração que pede a Deus que nos magoe: "Dilacere meu coração para que se crie um novo espaço para o Amor Infinito."

O sentimento íntimo de carinho que leva o pescador a desenredar a Mulheresqueleto também lhe permite sentir outros anseios esquecidos, fazer renascer sua compaixão por si mesmo. Como ele está num estado de inocência, ou seja, como imagina tudo ser possível, ele não tem medo de pronunciar os desejos de sua alma. Ele não tem medo de desejar, porque acredita que sua necessidade será satisfeita. É para ele um imenso alívio acreditar que sua alma se realizará. Quando o pescador chora seu sentimento verdadeiro, a reunião com a natureza da vida-morte-vida é propiciada.

Comentários

  1. A lágrima do pescador atrai para ele a Mulher-esqueleto. Faz com que ela sinta
    sede. Faz com que ela deseje participar mais da sua vida. Como nos contos de fadas,
    as lágrimas atraem as coisas para nós, elas consertam tudo, elas fornecem a peça ou o
    pedaço que faltava. Na história africana, "Cachoeiras douradas", um mago protege
    uma menina escrava fugida, chorando tanto que suas lágrimas criam uma cachoeira,
    atrás da qual a menina se refugia. Em outra história africana, "O chocalhar dos
    ossos", as almas de curandeiros mortos são invocadas ao se aspergir a terra com
    lágrimas de crianças. Somos relembrados insistentemente do poder desse enorme
    sentimento. Nas lágrimas há um poder de atração e, dentro da própria lágrima,
    imagens poderosas que nos orientam. As lágrimas não só representam o sentimento,
    mas são também lentes através das quais adquirimos uma visão alternativa.

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A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)