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O pescador na história demora para perceber a natureza do que fisgou. Isso vale para todo mundo a princípio. É difícil perceber o que se está fazendo quando se está pescando no inconsciente.

Quando se é inexperiente, não se sabe que lá no fundo vive a natureza da morte. Quando descobrimos que é com ela que estamos tratando, nosso primeiro impulso é o de jogá-la de volta. Passamos a ser como os pais que lançam suas filhas rebeldes para fora do caiaque e para o fundo do mar. Sabemos que os relacionamentos às vezes vacilam quando passam do estágio esperançoso para o estágio de encarar o que realmente está preso no anzol. Isso vale tanto para o relacionamento entre a mãe e o bebê de um ano e meio quanto para os pais e o filho adolescente, para as amizades e para os relacionamentos amorosos de uma vida inteira ou ainda muito recentes. A ligação iniciada com toda a boa vontade oscila e balança, às vezes até cambaleia, quando o estágio de "enamoramento" se encerra. Depois, em vez da encenação de uma fantasia, começa a sério um relacionamento mais desafiador, e toda a nossa experiência e habilidade precisam ser postas em ação.

Comentários

  1. A Mulher-esqueleto que jaz no fundo do mar é uma forma inerte da vida
    instintiva profunda, que conhece de cor a criação da vida, a criação da morte. Se os
    amantes insistem numa vida de alegria forçada, de um perpétuo desenrolar de
    prazeres e de outras formas de sensações intensas e entorpecedoras; se eles insistem
    numa tempestade sexual de Donner und Blitz, trovões e relâmpagos, ou num excesso
    de delícias sem nenhum tipo de luta, lá se vai a natureza da vida-morte-vida
    penhasco abaixo, de volta ao fundo do mar.
    A recusa a permitir a presença de todos os ciclos da vida-morte-vida no
    relacionamento amoroso faz com que a natureza da Mulher-esqueleto seja arrancada
    do seu habitat psíquico para se afogar.

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  2. O relacionamento amoroso assume, então,
    uma expressão forçada de "...não vamos nunca ficar tristes, vamos sempre ter
    prazer", expressão a ser mantida a qualquer custo. A alma do relacionamento
    desaparece de vista e sai a vaguear debaixo d'água, sem sentido e inútil.

    A Mulher-esqueleto é sempre jogada penhasco abaixo quando um dos
    parceiros, ou mesmo os dois, não consegue suportá-la ou compreendê-la. Ela é
    atirada de cima do penhasco quando não compreendemos bem seus ciclos de
    transformação: quando algo precisa morrer e ser substituído. Se os parceiros não
    puderem suportar esses processos da vida-morte-vida, não poderão se amar além das
    aspirações hormonais

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A Mulher Esqueleto

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)

As vezes aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos.

Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços — todos no mesmo relacionamento. O processo se complica com o fato de que grande parte da nossa cultura excessivamente civilizada tem dificuldade para tolerar o que tiver natureza transformadora. Existem atitudes melhores para nosso envolvimento com a natureza da vida-morte-vida. Em todo o mundo, embora lhe atribuam nomes diferentes, muitos vêem essa natureza como un baile con La Muerte, uma dança com a morte: a Morte como um dos parceiros, a Vida como o outro.