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O desafio do pescador é o de encarar A Morte, seu abraço e seus ciclos de vida e morte. Ao contrário de outras histórias em que uma criatura submarina é capturada e liberada, concedendo, assim, ao pescador um desejo como expressão de gratidão, A Morte não vai se soltar, A Morte não vai satisfazer desejos por nada.

Ela vem à tona, queiramos ou não, pois sem A Morte não pode haver um real conhecimento da vida e,sem esse conhecimento, não pode haver fidelidade, não pode haver uma devoção ou um amor verdadeiro. O amor tem seu custo. Ele exige coragem. Ele exige que percorramos a distância, como iremos ver.

Comentários

  1. Repetidas vezes observo um fenômeno em amantes, independente do sexo.
    Seria mais ou menos assim: duas pessoas começam uma dança para ver se elas vão
    querer se amar. De repente, a Mulher-esqueleto é fisgada por acaso. Algo no
    relacionamento começa a diminuir e cai em entropia. Com freqüência, o doloroso
    prazer da excitação sexual se abranda, um passa a perceber o lado frágil e ferido do
    outro, ou ainda um deixa de ver o outro como "material digno de admiração", e é aí
    que a velha careca e de dentes amarelos vem à tona.
    Parece tão repulsivo, mas esse é o momento perfeito em que se apresenta uma
    verdadeira oportunidade de demonstrar coragem e de conhecer o amor. Amar
    significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em
    que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção.
    Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir.

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A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)