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Desemaranhar a Mulher-esqueleto é começar a quebrar o encanto — ou seja, o medo de sermos consumidos, de morrermos para sempre. Em termos arquetípicos, desemaranhar algo é empreender uma descida, seguir por um labirinto, penetrar no mundo subterrâneo ou no lugar em que as coisas são reveladas de uma forma inteiramente nova, ser capaz de acompanhar um processo complexo.

Nos contos de fadas, soltar a faixa, desfazer o nó, desamarrar e desenredar representam começar a entender algo, a entender suas aplicações e usos, a se tornar um mago, uma alma sábia. Quando o pescador solta a Mulher-esqueleto, ele começa a ter conhecimento "prático" das articulações da vida e da morte. O esqueleto é uma excelente imagem para a natureza da vida-morte-vida.
Como imagem psíquica, o esqueleto é composto de centenas de peças compridas e redondas, grandes e pequenas, de formato estranho, em permanente relação harmoniosa umas com as outras. Quando um osso gira, os restantes giram, mesmo que de modo imperceptível. Os ciclos da vida-mortevida são exatamente assim. Quando a vida se movimenta, os ossos da morte também se movimentam em solidariedade. Quando a morte se movimenta, os ossos da vida também a seguem.De modo semelhante, quando um ossinho minúsculo está deslocado, lascado, deformado, com luxação, ele afeia a integridade do todo. Quando a natureza da vidamorte-vida é reprimida numa pessoa ou num relacionamento, ocorre o mesmo. A vida segue claudicante, hesita, vacila, impede o movimento. Quando houve algum dano a essas estruturas e ciclos, sempre ocorre uma interrupção da libido. O amor deixa, então, de ser possível. Ficamos debaixo d'água; só ossos, rolando de um lado para o outro.

Comentários

  1. Decifrar a natureza da vida-morte-vida significa aprender seus movimentos,
    seus hábitos, seus enfraquecimentos. Significa aprender os ciclos da vida e da morte,
    guardá-los de cor para ver como funcionam juntos, para ver que todos formam um
    único organismo, da mesma forma que o esqueleto é um único organismo.
    O medo é uma desculpa insuficiente para não realizar essa tarefa. Todos temos
    medo. O medo não é nenhuma novidade. Quem está vivo tem medo.

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A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

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Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)