A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.
Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra
proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem
emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do
seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que
anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que
o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto.
O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme:
há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na
Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia,
uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é
recuperado por meio de uma canção.
Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao
seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instante,
que a canção irá lhes trazer o que precisarem e transformar ou eliminar o que não
quiserem mais. Nesse sentido, a doação da música é um ato compassivo que permite
aos humanos convocar os deuses e as grandes forças até os círculos humanos. A
música é um tipo especial de linguagem que realiza essa função de um jeito
impossível para a voz falada.

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