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Trata-se de uma canção para propiciar a percepção, para auxiliar na soltura da natureza da Mulher-esqueleto. Não sabemos o que ele está cantando. Só podemos tentar adivinhar. Quando estivermos soltando essa natureza, seria bom que cantássemos algo mais ou menos assim: Ao que eu preciso dar mais morte hoje, para gerar mais vida? O que eu sei que precisa morrer mas hesito em permitir que isso ocorra? O que precisa morrer em mim para que eu possa amar? Qual é a não-beleza que eu temo? Que utilidade pode ter para mim hoje o poder do não-belo? O que deveria morrer hoje? O que deveria viver? Qual vida tenho medo de dar à luz? Se não for agora, quando?

A inocência é diferente da ingenuidade. No interior existe um antigo ditado: "A ignorância é não saber nada e ser atraído pelo bem. A inocência é saber tudo e ainda assim ser atraído pelo bem."
Vejamos até onde chegamos. O pescador-caçador trouxe a natureza da vidamorte-vida para a superfície. Contra sua própria vontade, ele foi "perseguido" por ela; mas ele também conseguiu encará-la. Sentiu pena do seu estado emaranhado e a tocou. Tudo isso o leva a uma participação plena. Tudo isso o leva a uma transformação, ao amor. Embora a imagem do sono possa indicar o inconsciente, nesse caso ele simboliza a criação e a renovação. O sono é o símbolo do renascimento. Nos mitos da criação, as almas adormecem enquanto se realiza uma transformação de uma duração determinada, pois no sono nós nos recriamos, nos renovamos. ...sono que deslinda a meada enredada das preocupações, [o sono é] o banho reparador do trabalho doloroso, [o] bálsamo das almas feridas, o segundo prato na mesa da grande Natureza, o principal alimento do festim da vida. — Shakespeare, Macbeth, II, ii, 36

Comentários

  1. Se tivéssemos a possibilidade de ver a pessoa viva mais calejada, a mais cruel e
    impiedosa, durante o sono ou no instante em que acorda, veríamos essa pessoa por
    um momento como o espírito não-conspurcado, a pura inocência. No sono, somos
    devolvidos mais uma vez a um estado de doçura. No sono, nos refazemos. Somos
    recriados de dentro para fora, novos em folha como inocentes.

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A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)