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Nesse estágio de inocência, o pescador volta a ser uma alma criança, pois no seu sono ele está ileso e não existe a recordação do que aconteceu ontem ou antes. No seu sono, ele não está lutando para assumir algum lugar ou posição. No sono, ele se renova

Dentro da psique masculina, há uma criatura, um homem incólume, que acredita no bem, que não tem dúvidas acerca da vida, que não só é sábio, mas também não tem medo de morrer. Alguns a identificariam como o self guerreiro, mas não se trata disso. É um self do espírito, e de um espírito jovem ainda por cima, que continua a amar independente de ter sido atormentado, ferido e exilado, porque a seu próprio modo ele cura a si mesmo, recupera a si mesmo. As mulheres podem testemunhar ter visto essa criatura oculta num homem fora dos limites da sua própria percepção. A capacidade desse espírito jovem de fazer com que o poder da cura atue na sua própria psique é tamanha que chega a estarrecer. Sua confiança não depende de que sua parceira não o magoe. Ela é uma confiança na possibilidade da cura de qualquer ferimento que ele sofra, uma confiança na vida nova que se segue à antiga. Uma confiança na existência de um significado mais profundo em todas essas coisas, em que acontecimentos aparentemente ínfimos não são desprovidos de significado, em que todos os aspectos da vida — os ásperos, os .recortados, os alegres e os sublimes —, todos podem ser aproveitados como energia da vida.

Comentários

  1. É também preciso que se diga que às vezes, à medida que o homem vai ficando
    mais livre e mais próximo da Mulher-esqueleto, sua parceira passa a ter mais medo e
    tem de se esforçar por si mesma no que diz respeito a decifrar e observar o sono que
    devolve a inocência e a aprender a confiar na natureza da vida-morte-vida. Quando
    os dois parceiros estiverem bem iniciados, juntos eles terão o poder de amenizar
    qualquer sofrimento, de sobreviver a qualquer dor.
    Pode ocorrer que uma pessoa tenha medo de "adormecer" na presença do
    outro, medo de voltar a uma inocência psíquica ou de que o outro tire alguma
    vantagem dela. Essas pessoas projetam sobre o outro todos os tipos de motivações e
    simplesmente não confiam em si mesmas. No entanto, não é dos seus parceiros que
    desconfiam. É que eles ainda não se acertaram com a natureza da vida-morte-vida. É
    na natureza da morte que eles precisam confiar. Como no sono, a natureza da vidamorte-vida na sua forma mais primitiva é tão simples quanto uma delicada expiração
    (um término) e inspiração (um início). A única confiança necessária é a de saber que,
    quando ocorre um final, vai surgir um novo começo.

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A Mulher Esqueleto

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)

As vezes aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos.

Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços — todos no mesmo relacionamento. O processo se complica com o fato de que grande parte da nossa cultura excessivamente civilizada tem dificuldade para tolerar o que tiver natureza transformadora. Existem atitudes melhores para nosso envolvimento com a natureza da vida-morte-vida. Em todo o mundo, embora lhe atribuam nomes diferentes, muitos vêem essa natureza como un baile con La Muerte, uma dança com a morte: a Morte como um dos parceiros, a Vida como o outro.