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Na justiça dos contos de fadas, assim como na psique profunda, a gentileza no trato com aquilo que pareça inferior é recompensada pelo bem, e a recusa a fazer o bem a quem não é belo é censurada e castigada. O mesmo ocorre nos importantes estados emocionais, como no amor.

Quando nos superamos para tocar o não-belo, somos recompensados. Quando desfazemos do não-belo, somos isolados da vida e deixados desamparados. Para alguns, é mais fácil ter pensamentos mais elevados, mais belos e tocar aquilo que decididamente nos transcende do que tocar, ajudar e apoiar o que não é tão positivo. Ainda mais, como a história ilustra, é fácil rejeitar o não-belo e ainda ter uma sensação enganosa de correção. É esse o problema de amor no trato com a Mulher-esqueleto. O que é o não-belo? Nosso próprio anseio secreto de sermos amados é o nãobelo. Desamar e mal-amar são o não-belo.
Nossa negligência na lealdade e na devoção não é bela. Nossa sensação de isolamento da alma é sem graça. Nossas incompreensões, falhas e imperfeições psicológicas bem como nossas fantasias infantis são o não-belo. Além disso, a natureza da vida-morte-vida, que dá à luz, destrói, incuba e dá à luz novamente, é considerada nas nossas culturas o não-belo.
Desemaranhar a Mulher-esqueleto é compreender esse erro conceituai e corrigi-lo. Desemaranhar a Mulher-esqueleto é compreender que o amor não significa apenas velas tremeluzentes e plenitude. Desemaranhar a Mulher-esqueleto significa que encontramos o entusiasmo em vez do medo nas trevas da regeneração. Significa um bálsamo para velhas feridas. Significa modificar nosso jeito de ver e de ser de modo a refletir a saúde da alma em vez da sua penúria.

Comentários

  1. Para amar, tocamos a mulher ossuda primitiva e não-tão-bela, decifrando para
    nós mesmos o sentido da natureza da vida-morte-vida, devolvendo-lhe o estado
    natural, permitindo que volte a viver. Não é suficiente puxar o inconsciente até a
    superfície; nem mesmo arrastá-lo por acaso até dentro de casa. Sentir medo ou
    desdém do inconsciente por muito tempo impede o avanço do amor.

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A Mulher Esqueleto

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Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

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Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)