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Entre o povo inuit, o corvo é o trickster. Em seu lado não desenvolvido, ele é uma criatura voltada para o apetite. Ele aprecia apenas o prazer e tenta evitar toda e qualquer incerteza assim como os temores gerados por ela. Ele é muito cauteloso e extremamente voraz, ao mesmo tempo. Se algo não lhe parecer satisfatório de imediato, ele sente medo. Se lhe parecer satisfatório, ele ataca.

O corvo gosta das belas conchas nacaradas, de contas de prata, de banquetes intermináveis, de mexericos e do sono aquecido sobre o buraco da chaminé. O egocorvo é o pretendente que quer " uma coisa certa". O ego-corvo teme que a paixão termine. Ele tem medo e tenta evitar o fim da refeição, o fim do fogo, o fim do dia e o fim do prazer. Ele passa a agir com astúcia sempre prejudicando a si mesmo pois,quando se esquece da própria alma, ele perde seu poder. O ego-corvo receia que, se admitirmos a natureza da vida-morte-vida nas nossas vidas, nunca mais seremos felizes. Afinal, será que esse tempo todo fomos assim tão perfeitamente felizes, hein? Não. Só que o ego-corvo é muito simplório,como uma criança antes de ser socializada, e também uma criança não muito otimista. Ele é mais como uma criança que passa o tempo todo observando para ver qual é a fatia maior, qual cama é a mais macia, qual namorado é o mais bonito.

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A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)