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A Mulher-esqueleto, que passou uma eternidade debaixo d'água, também pode ser compreendida como a força da vida-morte-vida de uma mulher que tenha sido mal utilizada ou que tenha ficado sem uso.

Em sua forma essencial exumada, ela governa a capacidade intuitiva e emotiva de completar os ciclos vitais de nascimentos e encerramentos, de lamentações e festejos. Ela é a que observa as coisas. Ela sabe dizer quando chegou a hora de um lugar, uma coisa, um ato, um grupo ou um relacionamento morrer. Esse dom, essa sensibilidade psicológica, aguarda aqueles que se disponham a soerguê-la ao nível do consciente pelo ato de amar o outro.

Comentários

  1. Uma parte de cada mulher e de cada homem resiste ao reconhecimento de que
    a morte deve participar de todos os relacionamentos de amor. Nós fingimos que
    podemos amar sem que morram nossas ilusões acerca do amor, fingimos que
    podemos prosseguir sem que morram nossas expectativas superficiais, fingimos que
    podemos ir em frente e que nossas emoções preferidas nunca morrerão. No amor,
    porém, em termos psíquicos, tudo é dissecado, tudo. O ego não quer que isso ocorra.
    No entanto, é assim que deve ser, e a pessoa provida de uma natureza profunda e
    selvagem é inegavelmente atraída pela tarefa.

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  2. O que morre? As ilusões, as expectativas, a voracidade de querer tudo, de
    querer que tudo seja só lindo, tudo isso morre. Como o amor sempre provoca uma
    descida até a natureza da morte, podemos perceber por que é preciso grande poder
    sobre si mesmo e plenitude de alma para assumir esse compromisso. Quando uma
    pessoa se dedica a amar, ela também está se dedicando a ressuscitar a Mulher esqueleto e todos os seus ensinamentos.

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A Mulher Esqueleto

A história também ilustra um duplo poder que vem da psique através dos símbolos do tambor e do canto. Nas mitologias, as canções curam ferimentos e são usadas para atrair a caça. As pessoas são convocadas quando se entoam seus nomes. Alivia-se a dor; alentos mágicos restauram o corpo. Os mortos são invocados ou ressuscitados por meio do canto.

Diz-se que toda criação foi acompanhada de um som ou de uma palavra proferida em voz alta, de som ou palavra sussurrada ou pronunciada sem voz. Quem emite esse tipo de "palavra sonora" pode ter tido conhecimento ou compreensão do seu significado ou não. Considera-se que o canto brota de uma fonte misteriosa, que anima toda a criação, todos os animais, seres humanos, árvores, plantas e tudo o que o ouvir. Na literatura oral, diz-se que tudo que tem "seiva" tem canto. O hino da criação produz a transformação psíquica. A tradição deles é enorme: há canções propiciadoras do amor na Islândia e entre os povos wichita e micmac. Na Irlanda, o poder mágico é invocado pelo canto mágico. Numa história da Islândia, uma pessoa cai em penhascos gelados e tem um membro decepado, mas ele é recuperado por meio de uma canção. Em quase todas as culturas, no momento da criação os deuses dão canções ao seu povo, dizendo-lhes que seu uso irá chamar os deuses de volta a qualquer instant...

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas. CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

Este blog foi feito á partir do livro... Estes, Clarissa Pinkola Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem/de Clarissa Pinkola Estes;tradução de Waldéa Barcellos; consultoria da coleção, Alzira M. Cohen. – Rio de Janeiro: Rocco, 1994. (Arcos do Tempo)